Sangue no Congresso

Por Lucas Lyra

 

O Congresso Nacional é um dos edifícios mais proeminentes na linha do céu brasiliense. Planejado por Oscar Niemeyer como mais que um mero edifício, mas como um símbolo da união dos 3 Poderes, rodeado pelo Palácio do Planalto, sede do Executivo, e pelo Supremo Tribunal Federal, o mais alto órgão do Judiciário brasileiro. “Arquitetura não constitui uma simples questão de engenharia, mas uma manifestação do espírito, da imaginação e da poesia”, disse o quase lendário arquiteto sobre o projeto do Congresso. Já Ulysses Guimarães, um dos maiores líderes da Constituinte que restaurou a democracia brasileira após 40 anos de ditadura militar, costumava se referir ao Congresso como “a Casa do entendimento”.

A bem da verdade, os últimos acontecimentos políticos do país mostram que nenhum dos dois estava exatamente certo sobre o Congresso brasileiro. Mas se engana aquele que pensa que são estes os tempos de menos consenso e tensões mais acirradas já vividos pelo parlamento. Dentre diversos outros crimes infelizmente cometidos em suas dependências pelos nossos representantes, se destacam dois homicídios à mão armada, cometidos pelos próprios parlamentares.

Pouco depois da inauguração da capital, em 4 de dezembro de 1963, o pai do ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTC-AL), Arnon de Mello, que também exerceu mandato de senador, protagonizou um dos momentos mais vergonhosos já vistos na política brasileira.

Um carismático vendedor da pequena cidade de Brasileia, no Acre, José Kairala, suplente do senador José Guiomard, se preparava para fazer seu último discurso na curta carreira de pouco mais de seis meses que teve no Senado. Aquele seria seu último dia no cargo.

Enquanto isso, os ânimos de uma acirrada rixa regional entre Arnon e seu conterrâneo, Silvestre Péricles (PTB-AL), se acirravam exponencialmente. Após ameaças de ambos os lados, Silvestre conversava com outro senador, Arthur Virgílio Filho (PTB-AL), pai do atual prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), quando o pai de Collor gritou para Silvestre: “crápula!”.

Silvestre não se aguentou e partiu para cima, mas Arnon foi mais rápido. Sacou sua Smith & Wesson .38 e disparou dois tiros. Apesar da avançada idade, 67 anos, Silvestre se jogou rapidamente ao chão se salvando das balas, e também sacou um revólver.

João Agripino (UDN-PB), tio do senador José Agripino (DEM-RN), se encarregou de segurar Péricles, enquanto José Kairala tentou conter Arnon. O segundo tiro disparado atingiu o estômago de Kairala, que morreu cerca de três horas depois no Hospital de Base de Brasília.

O acreano tinha 39 anos, deixou três filhos e a esposa grávida.

Já os “briguentos”, Arnon e Péricles, ficaram alguns poucos dias presos e logo foram liberados, inclusive, para voltarem a seus cargos.

Arnon de Melo prestando depoimento na 1ª Vara Criminal, em Brasília.

Anos depois, em 8 de junho de 1967, os deputados Nelson Carneiro (MDB-RJ) e Estácio Souto Maior (MDB-PE), pai do piloto Nelson Piquet, brigaram arduamente pelo comando da União Interparlamentar, quando Estácio deu um tapa no rosto de Nelson. No mesmo dia, ao final da sessão, Nelson esperava Souto Maior em frente à agência do Banco do Brasil no hall inferior da Câmara dos Deputados. “Agora você me paga aquele bofetão”, disse quando viu o deputado descendo as escadas do Salão Verde. Souto Maior respondeu: “sai daqui, seu negro!”.

Nelson sacou um revólver e acertou o pai de Piquet logo em seu primeiro tiro. A partir daí, desenrolou-se uma cena típica de filme de faroeste norte-americano. Souto Maior caiu ao chão já também sacando sua arma, enquanto Nelson se escondeu atrás de uma pilastra. Foram mais de 10 tiros disparados entre os dois no hall da Câmara. Por sorte, ninguém foi atingido.

No processo instaurado para apurar responsabilidades sobre o ocorrido, ambos foram absolvidos e seguiram com seus mandatos.

 

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