Apagão alimentar, escreve Xico Graziano

Certa esquerda costuma criticar os modernos sistemas agroindustriais. A estes contrapõem a produção autônoma de alimentos. É curioso. Seria como dar um retorno no tempo.

Ressalta-se a virtude da pequena escala, dos negócios locais, naturais, comandados por uma espécie de campesinato ecológico e consciente. Um combate ao capitalismo tecnológico que domina o agro.

Os economistas agrários, onde me incluo, argumentam que tal hipótese representa uma regressão na história da agricultura e da alimentação humana. Entre nossos argumentos, decisivo é considerar a urbanização do mundo.

Seria simplesmente impossível abastecer as metrópoles e, regra geral, as cidades médias, a partir de uma agricultura de pequena escala. Falo das massas populares, não das elites. Sim, porque essas, ricas e educadas, conseguiriam bem se alimentar via mercados locais. Caros, e sofisticados.

Mas o grosso da população, que mal tem tempo, nem dinheiro, para comer corretamente, sofreria um apagão alimentar se fossem desmontadas as grandes cadeias tecnológicas de produção, transformação e distribuição vinculadas ao agro.

A busca do lucro manda no sistema alimentar, denunciam os pró-campesinos do século 21. Acusam o pérfido mercado por direcionar os agricultores a produzirem soja, e não arroz e feijão. Daí, em consequência, o povo passa fome.

Trata-se de um silogismo banal. No Brasil, o consumo per capita de arroz e feijão tem caído sistematicamente desde quando ocorreu a urbanização do país. Nos últimos 40 anos, os brasileiros reduziram seu prato de feijão de 24,9 quilos/hab/ano para 14,3 quilos/hab/ano.

A queda do consumo de alimentos básicos faz parte da história. Na roça, a laranja é chupada; na cidade, a fruta vira suco. Galinha caipira se torna, no asfalto, o frango assado na televisão de cachorro vadio. Sai o fogão à lenha, entra o micro-ondas.

A soja não enche prato” pichada recentemente pelos pseudorrevolucionários do MST, nas paredes da Aprosoja, em Brasília, a frase representa um impropério típico do pior obscurantismo.

Basicamente utilizados na fabricação de rações animais, grãos de soja se transformam em proteínas de elevada qualidade – ovos, leite e carnes. No filé de tilápia, no peito de frango, na feijoada, basta procurar, lá está o valor nutricional da soja.

Alguém é contra?

Da carne de frango produzida no Brasil, cerca de 70% são consumidas no mercado doméstico; nos suínos, o consumo interno está ao redor de 80% da produção. Os números atestam que o farelo de soja vira carne na mesa da imensa maioria dos brasileiros.

Preste atenção na prateleira do supermercado: o óleo de cozinha que você, provavelmente, utiliza é oriundo do milho, da canola ou do girassol. Pois bem. Tais óleos mais finos custam, em média, 50% acima do óleo de soja. Este é o preferido pelas famílias mais simples.

Maldizer a soja significa dar um tapa na cara do povo.

Uma pergunta: você gosta de chocolate, bolo, bolacha, sorvete, salsicha, hambúrguer, barrinha de cereal, dá papinha para recém-nascidos?

Pois bem. Todas essas guloseimas dependem da lecitina da soja para serem fabricadas. A lecitina é o mais importante emulsionante utilizado na indústria alimentar.

Para finalizar, a soja ainda apresenta uma vantagem ambiental: por ser uma leguminosa, suas raízes conseguem, através de um processo biológico chamado “nodulação”, absorver nitrogênio do ar.

Em consequência, lavouras de soja não precisam ser adubadas com nitrogênio químico, advindo da amônia, sintetizada a partir do petróleo. São baixas, assim, as emissões de Carbono da lavoura de soja no Brasil.

Duas conclusões:

  • Combater os modernos sistemas agroalimentares significa querer destruir os centros metropolitanos, levando a população mundial a se espraiar pelos campos. Uma verdadeira ameaça ao equilíbrio ecológico no planeta Terra.
  • Esqueça essa bobagem de que a lavoura da soja só interessa às multinacionais e à exportação. A cultura da soja é uma benção para a população do Brasil.

Cuidado com os mitos. Atenha-se aos fatos.

 Da redação com o Poder 360

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *